Ontem fui no centro, passei pelos mesmos lugares, mas estava tudo tão diferente, parecia que faltava algo... Fiz os mesmos trajetos de sempre, desci do metrô na São Bento, subi as escadas, passei pelo viaduto e fui na Santa Efigênia trocar o som com defeito que tinha comprado...
Sai da loja onde fiz a troca do som as 17:00, tinha que esperar a Ju que tava na 25 de março comprado presente pra um aniversário que tem aqui hoje.. tive que ficar de bobeira, por lá ate as 19:30, duas horas e meia para perambular a toa pensando nas cagadas que tenho feito na vida ...
Cada esquina por onde passava me lembrava algo que não faz parte da minha existência agora.. um compartilhar de vivência que sumiu dos meus dias,... semelhante ao que sente quem esta de luto por alguém querido, mas no meu caso, parecia que eu tinha ressuscitado no meu próprio velório e não tinha ninguém velando o corpo ..estava só como nunca estive... cheio de um vazio indescritível.. um sentimento de ser estrangeiro na própria cidade..
Pra dar o clima certo o tempo resolveu tingir se de cinza e armou uma tempestade, daquelas que não se sabe se vem ou não.. ficou aquele cinza chumbo la fora nas ruas pra combinar com o preto luto do peito .. fiquei por ali, como um zumbi, andando sem rumo, sem sentido, sem vontade de nada.. o vento esvoaçando os cabelos..as ruas passavam por mim em câmara lenta..os prédios, velhos conhecidos, me olhavam como a perguntar o que tinha acontecido, e eu não sabia como ou o que responder...
Começou a pingar, apressei o passo e fui pra estação São Bento, fique por lá, num canto, quieto, vendo as lembranças de dias felizes escorrerem junto com a agua da chuva pelas escadarias da estação...apesar da dor, não existe arrependimento pelo que foi vivido de uma forma tão intensa como foi ou ainda é..
De repente uma luz brilhou no meio da multidão sem rosto que passava apressada,.. era Ju que chegava da 25, inexplicavelmente sem sacolas, ela não encontrou o que queria.. mas eu sim, me agarrei naquele raio de sol como quem acorda de um pesadelo,...sorrimos, trocamos um breve beijo e encostamos num daqueles canteiros de flores que tem por lá, ficamos abraçados por um momento em silencio...ela não viu uma lágrima que rolou, caiu da face, e se misturou com a agua da chuva...
Já era quase 20 horas, o metrô devia estar mais vazio, voltamos juntos para a vida...
